sexta-feira, janeiro 21, 2005

Oblíquas pluralidades e deambulações da forma em Ramos Rosa

“OBLÍQUAS PLURALIDADES E DEAMBULAÇÕES DA FORMA EM ANTÓNIO RAMOS ROSA”


1-A palavra poética em António Ramos Rosa.
Em Ramos Rosa apresenta-se uma relação inexorável entre seu trabalho poético e sua actividade ensaística. Como a matéria de reflexão centra-se na palavra poética é fulcral desentranhar o que esta significa e os atributos que o poeta lhe confere. A tal fim é elucidativo o artigo de Firmino Mendes[1] que estabelece uma comparação entre os pareceres de Octávio Paz e Ramos Rosa, poetas-críticos ambos, sobre a palavra na poesia. A esta se lhe reconhece certa sacralidade, o que deriva do reconhecimento da sua autonomia. É bem sabida a influência que o livro de Paz El arco y la lira de 1952 suscitou em todo o mundo e em Portugal, a modo de acompanhamento e inspiração, o ensaio de Ramos Rosa Poesia Liberdade Livre de 1962 afirmou princípios marcantes que iriam orientar uma prática poética. Nesse livro Ramos Rosa afirma que “o poema é uma palavra interminável”. Foi o poeta mexicano que falou “del abrazo de los contrários”. Princípio de fusão tão caro aos surrealistas. Junção, indistinção onde tudo se congrega no poema. Os contrários no fenómeno poético se anulam, articulam-se ou convivem como uma unidade total. Para Octávio Paz na simultaneidade: a poesia põe ao homem fora de si e simultaneamente o faz voltar a seu ser original, o volta para si mesmo. Então a poesia passa a constituir num único acto, o da sua concretização: descobrimento e revelação, desvendamento e criação, retorno e chegada do que estava antes e do que não existia.

Do título da obra de Ramos Rosa tomado de Rimbaud, reconhece-se a identificação entre poesia e liberdade. As possibilidades da palavra poética são indissociáveis da sua liberdade. É nela que a palavra atinge o fôlego necessário para que o trabalho do poeta seja verdadeiramente instaurador. Poesia e liberdade se correspondem e resultam tópicos condicionantes da sua própria existência e plenitude. Daí que a respiração como alimento vital e simbólico seja em Paz: “poesia y respiración” e em Ramos Rosa “respiração livre”. Isto resulta assim porque se segue o sentido de Mallarmé, para quem o papel da poesia “é dar um sentido novo às palavras da tribo. Firmino Mendes também recolhe o dito por Almada Negreiros: o papel do poeta não era inventar as palavras porque as palavras já tinham sido inventadas. O que era preciso “inventar as palavras inventadas”.

No mesmo sentido afirma Ramos Rosa que “as palavras repetem, não se repetem”.
Então para que a palavra poética crie também a liberdade e seja consequência dela, precisa de poder respirar, flutuar entre a matéria e o mistério, entre o sol e o silêncio.
Vemos que todos estes tópicos que vão aparecendo servirão de sustento teórico para o desenvolvimento da poética de Ramos Rosa através de todo o seu percurso de poeta. Como a poesia vive sob o signo da liberdade e que a poética na sua liberdade se inventa a si mesma, resulta um todo coerente que Ramos Rosa tenha exercitado e ensaiado numerosas vias de disposição nos seus poemas. Ensaísta e poeta se intercomunicam, dialogam, questionam-se e assim resultam um pressuposto do outro e vice-versa.
Outro tópico é o da poesia enquanto palavra original. Regresso a um início quando a palavra era criadora de um mundo, o que é consequência do poder que assume na sua liberdade e não apenas o nomeava. O poema passa a ser fragmento de um absoluto, vestígio da antiga perfeição. Os topos da origem: paraíso perdido. Espaço-tempo da unidade, da totalidade. Totalidade que para Ramos Rosa é aberta. A poesia unifica o sagrado e o profano numa indiferenciação axiológica.
Para Octávio Paz o poema é um organismo verbal produtor de silêncios. Esse silêncio possui um lugar de privilégio:
“el poeta llega hasta el borde del lenguaje. Y esse borde se llama silencio, página en blanco. Un silencio que es como un lago, una superfície lisa y compacta. Dentro sumergidas aguardan las palabras . Y hay que descender, ir al fondo, callar, esperar.” (Paz, 1956, p. 143).
Tópico que também adquire em Ramos Rosa uma presença quase constante: quer como elemento estruturante fundamental, quer como símbolo de resistência perante as estridências do mundo.


Sabemos que a constante reflexão sobre a palavra poética é absolutamente essencial em Ramos Rosa, por isso Silvina Rodrigues Lopes [2] reconhece que na poesia rosiana “é abrindo um caminho ao pensamento” que “se conquista a possibilidade do poema”.

Como a poesia de Ramos Rosa não é representativa de uma realidade exterior, pois constrói imagens que a transmutam para um espaço interior. Esse é o Real enunciado no poema. Por isso não traduz só relações preexistentes, mas ela própria determina e estabelece tais relações de uma maneira original. Portanto os críticos da sua poesia concordam que nela não encontraremos uma acessibilidade imediata. João Rui de Sousa fala-nos “de uma poesia de não fácil comunicabilidade”. Vasco Graça Moura indica que implica um grau de dificuldade para quem pretenda abordá-la, a diferença da de Eugénio de Andrade dotada de uma musicalidade mais clássica, tradicional. Enquanto em António Ramos Rosa apareceria revestida de uma música atonal. Eduardo Prado Coelho expressa “a mono-tonia da palavra poética” ramosrosiana e que não resulta fácil falar dela. Para Paula Cristina Costa existe uma “mistura de poeta órfico e hermético”. Palavra hermética pelo que oculta e silencia nesse recolhimento de si mesmo.
Mas ao mesmo tempo se lhe reconhece “o sentido de uma comunicabilidade mais profunda e perdurável” (João Rui de Sousa) e de uma monotonia não infecunda porque produto de uma obsessão e que sempre encontra uma habitação desconhecida para o edifício da sua poética (Eduardo Prado Coelho).
Consideramos então que da poética de Ramos Rosa deriva-se uma palavra essencial, palavra não aberta para uma instância comunicativa de primeira leitura. Nítida mas não transparente. Há um enigma que a cobre. Um enigma de fogo que não é possível delimitar.
A questão do limite é fulcral, pois onde começa e onde se apaga o sentido?. Onde recomeça e se multiplica em incontáveis linhas divergentes?.
Ao mesmo tempo densas e profícuas, explodem e se ocultam; envolvem e mostram o fazer, o processo de escrita do poeta e do poema.

2-Diferentes fases na poesia de Ramos Rosa.

Haveria uma primeira fase tributária mas não de uma maneira ortodoxa, do Neo-Realismo e do Surrealismo. Tendências ambas dominantes no espaço poético português da década do 40.
Fase que caracteriza-se pela dicotomia: liberdade/opressão, indivíduo/sociedade. Sentimento de revolta, de reacção do homem que não se resigna à perda da sua liberdade. Empenhamento mas não panfletário, através de uma ténue e depurada estilização do Neo-Realismo. Já se torna presente a característica do oblíquo[3], uma mirada de soslaio sobre os códigos.
É o tempo do Grito claro(1958), depois retomado com poucas modificações na primeira parte de Viagem através de uma nebulosa[4](1960). Este livro dividido em três capítulos reúne textos produzidos entre 1945 e 1958.
Para Ana Paula Coutinho [5] essa poesia servia de resposta às exigências de denúncia e resistência contra a ditadura. (p. 20).
Põe-se em evidência o compromisso com as responsabilidades sociais e cívicas do poeta. Existe um mal-estar perante uma realidade social mutiladora e asfixiante, que vai conduzir a uma poesia necessária e solidária. Uma denúncia urgente de uma angústia existencial.

A segunda fase começaria a se insinuar na terceira parte de VAN denominada “Poemas Nus”, mas que vai-se configurando a partir de Voz inicial (1960) e que se dirige na direcção duma linguagem mais despojada e menos discursiva. A interrogação se desloca em torno da matéria do real e da matéria do poema, para configurar “uma retórica minimalista e obsessiva” e uma “linhagem da poesia da poesia”. (Ana Paula Coutinho). Predomina a autoconsciência e auto-reflexividade contida sobre o processo de construção poético. A austeridade e redução verbal são manifestas para evidenciar o peso e a presença dos brancos da página. Símbolo do silêncio como espaço denso no poema.


A terceira fase implica uma mudança a partir de Gravitações (1983) e com Volante verde (1986) ganham força as imagens de uma realidade genesíaca. O fulgor metafórico está mais presente, até com rasgos surrealizantes, e no alongamento dos versos e poemas aparece uma maior discursividade. Sua linguagem imagisticamente mais exuberante conduz para uma exaltada relação com a natureza num maior desenvolvimento narrativo.

3- “Deambulações Oblíquas” [6] publicado em 2001, não aparece na Antologia referida de Ana Paula Coutinho que inclui até O Aprendiz Secreto do mesmo ano.
Livro claramente inserido na terceira fase do poeta, contém 101 poemas sem título e cujo único signo de pontuação que aparece é o signo de interrogação. Poemas que carecem de ponto final como manifestação do inacabado do labor poético.
O aspecto não dialéctico em Ramos Rosa : “não escrevo para chegar a uma conclusão” (p. 13) liga-se também a que sua poética não é o desenrolar duma didáctica nem tende para o exercício de uma explicação.
À palavra é atribuída a substância de um substantivo no caso de palavras “como se fossem folhas” (p.19) e o poema aparece como “um peixe que nada em diversos níveis” ( p.78).

A palavra também tem seu poder que resulta dum movimento antagónico:

As palavras concentram-se e propagam-se como uma concha
ou uma onda
e a arte está no equilíbrio do seu movimento
para dentro e do seu movimento para fora (p. 76)





A palavra extrai sua riqueza através das suas combinações. A palavra seca, de beleza dura não basta:
…para que a estrela ou o sol brilhem na palavra com maior fulgor
e não apenas o das palavras isoladas
é necessário que se combinem e relacionem
na corrente viva da linguagem fluentemente apaixonada (p. 77)

Parece estabelecer metonimicamente que as palavras são como os homens. O homem é como a palavra na sua necessidade gregária e social de estabelecer um contacto fulgurante.


Sempre o encontro da incerteza nessa aventura que decorre-se diante a página. A obsessão pela génese do processo de escrita. Pela origem do pensamento e do seu reconhecimento como energia amorfa, indisciplinada, caótica:

O meu braço estende-se os dedos abrem-se um pouco
A mão move a esferográfica Qual vai ser o rumo?
Talvez tudo esteja já decidido sem o saber
porque tenho uma noção do nada ou do todo informulado
Só aparentemente coloco as palavras uma a seguir às outras
como se fosse de palavra em palavra
mas é de uma obscura noção que tudo parte (p. 78)


A palavra faz avançar o poema e este em algum ponto relaciona-se com o universo. E a palavra que vale é aquela que se movimenta e flui no dinamismo do poema que sempre avança, a palavra-peixe:

…se todo acto é gerado por uma energia
a energia da palavra é das mais fluidas
e projecta-se para diante antecipando o pensamento (p. 83)

Assim a palavra é um peixe que se acende no vento (p. 83)

Em DO o poeta sempre apela à unidade primordial mas no reconhecimento da sua impossibilidade. O tema da precariedade do homem perante o tempo é permanente:

Se pudesse ser esse acorde puro elementar
então seria inteiro ainda que fosse um simples grão
da matéria infinita Assim quem sou eu?
Um corpo de areia que se escoa sem agarrar o tronco (p. 74)



Uma constante que se verifica é o estado de expectativa, de incerteza que experimenta o sujeito poético sobre o destino e configuração da sua escrita. Esse estado de assombro e sobretudo de desconhecimento não resulta impedimento para seu incessante processo de construção. A fonte da escrita poética é um magma amorfo, e a força que o “impele” constitui esse instante sacro, esse fulgor onde o poema se realiza atingindo uma efémera totalidade. Essa deambulação abrange o movimento criativo sobre o poema. Sua origem fluente, dinâmica, é mistério original e congrega surpresa, perplexidade:

O poema não preexiste O que nele é latente
é uma substância imediata que se alonga em ramos
e é ele que vai à frente como para responder
a um visitante inesperado que bate à porta (p. 98)



A figura do passo do tempo remete para uma angústia existencial e como perturbação da memória :


Teremos tido alguma vez o que julgamos ter perdido?
Quisemos a presença permanente mas nunca a tivemos (p.79)




E mais adiante:

E agora perguntamos
Como pode a vida ter passado como uma nuvem obscura
E continuar a passar
como se não fôssemos mais que folhas de cinza?
Procurámos estar onde estávamos
mas era tão difícil manter em equilíbrio a coluna do silêncio (p. 79)



Em Ramos Rosa toda a armonia mundi, cenário de placidez, de conjugação de luzes e sombras, aparece ameaçado pelo “inexorável” que subjaz quando se apagam os instantes plenos mas breves de explosão poemática e amorosa. O “incessante efectivo”, como destino fatal que angustia e nos leva em direcção à morte. Esta se constitui graças à sucessão do passo do tempo que nos tira a eternidade e a unidade. Por isso há toda uma política de recusa do transcorrer temporal por meio da criação poética e por invocar no texto o presente permanente dum espaço adámico. Podemos aceitar a aventura do inesperado, a surpresa diante o processo dum novo poema, mas nunca a extinção do sujeito. O sujeito poético sabe que o que produz são só “linhas”, traços inacabados, a mão que empunha a caneta inventa, cria os deuses e afasta a morte. A palavra na sua omnipresença instaura enquanto aniquila. Nela tudo conflui pois no seu interior há uma vibração que permite iluminar a paisagem esvaziada do ser. A verdadeira morte seria o desaparecimento das palavras:



Terá a palavra o poder de abolir e abolindo inaugurar?
…será o acaso que a gera ou a implacável lógica? ( p. 71)







A gratuidade do poema e da sua escrita significaria antes de mais nada a abolição da divisão do ser?. Fundindo-se na experiência da totalidade. Quem sentiria a falta do poema ?. O poeta se agita e mergulha no turbilhão do poema . Do desejo verbal que o atravessa e transcendentaliza consegue produzir esse “relâmpago de nada”.

Este poema é absolutamente desnecessário
pela simples razão de que poderia nunca ser escrito
e ninguém sentiria a sua falta
esta é a sua liberdade negativa a sua vacuidade dinâmica (p. 69)




Desse clima reactivo ao estentóreo :


Escrever é um diálogo com a solidão
…não lhe podemos oferecer uma lâmpada vermelha
ou uma bandeira eloquente e vitoriosa ( p. 110)



Surge então o âmbito propício para que a solidão possibilite “a flutuação vibrante” que gerará o poema. De silêncio a silêncio o poema constrói-se na procura de um refúgio. “Do vazio contra o vazio” no seu deslocamento descentrado. A coerência definida do poema “toda a coerência do poema é uma inversão do silêncio” (p.73) deriva da sua recorrente inutilidade sua “nulidade ardente”. Mas o poema é também criador demiúrgico de imagens que nunca se viram. Do real criado pela palavra ou só conhecido através dela. Quando o poema é órficamente considerado então é que pode ser escrito. “O poema deveria tocar ao menos o ombro daquela que nunca existiu” (p.68).








Em DO notamos uma maior discursividade e uma tensão poética e retórica onde o excesso retórico não anula a instância poética. A voz do poeta transita o espaço da linguagem que atravessa o tempo da condição humana e como impulso breve de energia permite a apreensão da plenitude.
O poema é atendido como processo que não o principia mas que o retoma in medias res, fazendo corpo com outros poemas tão incompletos quanto ele:

Pode o poema não ter rosto e ser apenas um torso de água
a sua ondulação será a lenta plenitude
do que não poderia ser e terá sido num improvável nascimento ( p. 65)


As interrogações frequentes no livro constituem um apelo consciente da impossibilidade de respostas. O ser na sua fome de eternidade se consome nelas pelo conhecimento do nosso passar efémero, sendo em última instância o poema símbolo desse processo: “será que existe uma sabedoria para vencer a dor a solidão a morte?”


Em DO a falta de vírgulas e em suma de orientações de pontuação, solicitam a leitura completiva do leitor que deverá encontrar o ritmo do poema ou descobrir-lhe outro, que poderá ser diferente a cada leitura que esta estrutura aberta do poema convida. O poema tem sua respiração mas não fornece pistas ao leitor, que poder-se-á perder-se até a encontrar ou ensaiar novas combinações. Liga-se esta estrutura em aberto à já referida série de interrogações, o que expõe em fundo e forma o aspecto não elucidador nem orientador desta poesia, onde o poeta não se erige em centro de determinações textuais. A palavra poética não fica reduzida a um sentido unívoco, pois tudo está em eclosão, em movimento. Os elementos materiais concretos transfiguram-se em imagens não figurativas.

Trata-se de uma poesia onde o peso da história é reduzido quando no começo em Ramos Rosa , a participação social nutria o texto do poema.
O universo natural prevalece sobre o cultural mas continua recorrente a sua autoconsciência metapoética. Também consideramos que não desce esta poesia ao trânsito pelo cotidiano mas a uma abertura de energias metafóricas que rarefazem o significado.
Poesia em suma como procura da totalidade e plenitude do ser no mundo como consciência utópica.
Poesia como aventura inacabada da produção de um texto infinito.
Poesia como veículo de múltiplas formas de disposição do discurso poético que são ensaiadas pela condição instável do poema.
Poesia como reunião de paradoxos e experiência da linguagem e não de representação nem de comunicação mas de conjunção.
Poesia que ganhou em exuberância paisagística sem perder contacto com temáticas de reflectividade, onde por vezes as imagens e metáforas constituem vias de saída desse pensamento poético.







[1] COLÓQUIO/LETRAS nº 147/148. Janeiro-Junho 1998.
[2] No Prefácio a Deambulações Oblíquas, p. 7.
[3] O termo será uma presença marcante na palavra do poeta, seja nos ensaios Incisões Oblíquas (1987) seja no poemário Deambulações Oblíquas de 2001
[4] Posteriormente referido com a sigla VAN.
[5] Antologia Poética de António Ramos Rosa, pp. 17-26.
[6] Daqui em diante referido pela sigla DO.